© 2019

PROGRAMA

 

BIBLIOTECA DO PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA

09h30 | 10h00 

Receção dos participantes

10h00 | 11h00 

Sessão de Abertura /

Apresentação da Rota Memorial do Convento 

11h00 | 11h30 

Pausa para café

CLAUSTRO SUL DO PALÁCIO NACIONAL DE MAFRA

12h00 | 13h00 

Conferências inaugurais Moderador: Miguel Real

12h00 | 12h30 

Pilar Del Ri- Leer a José Saramago

12h30 | 13h00 

Piero Ceccucci A escrita, o olhar e o tempo histórico em

Ensaio sobre a Cegueira e no Memorial do Convento de José Saramago

13h00 | 15h00 

Pausa para almoço

>1º Painel - Moderador: Annabela Rita

15h00 | 15h30 

Carlos Nogueira A literatura e o mal: José Saramago

15h30 | 16h00 

Isabel Ponce de Leão

- A violação do código erótico em Memorial do Convento

16h00 | 16h30 

Pausa para café

>2º Painel - Moderador: Carlos Nogueira

16h30 | 17h00 

Annabela Rita - "Detrás da claraboia/ um rosto, outro,/ observando-se,

/ observando-nos."(Severo Sarduy)

17h00 | 17h30 

Maria Fernanda Monteiro dos Santos 

O Palácio Nacional de Mafra e o "Memorial do Convento" antes e depois do Nobel

17h30 | 18h00 

Miguel Real - Memorial do Convento e o romance português

na década de 1980

14  DE  NOV

 

15  DE  NOV

 

16  DE  NOV

>7º Painel - Moderador: Vítor Viçoso 

10h00 | 10h30 

Abdeljelil Larbi - Memorial do Convento em árabe:

características da receção e tradução

10h30 | 11h00 

Maria Fátima Marinho - Identidades imperfeitas e desencontradas

11h00 | 11h30 

Pausa para café

>8º Painel - Moderador: Miguel Real

11h30 | 12h00 

Vítor Viçoso Memorial do Convento: a prática ficcional

e a reescrita da História

12h00 | 12h30 

Cândido de Oliveira Martins

- Modos da Paródia no Memorial do Convento.

12h30 | 13h00 

Encerramento das conferências - Carlos Reis

“«Meter isto num romance»:

Saramago e a narrativização do espaço”

>9º Painel - Moderador: Miguel Real

13h00 | 13h30 

Olhares sobre o Memorial do Convento

pela Escola José Saramago de Mafra; 

As palavras de Saramago pela Comunidade de

Leitores das Bibliotecas Municipais de Loures

13h30 | 15h00 

Pausa para almoço

15h00 | 16h00 

Teresa Amaral - Visita Comentada

à Biblioteca e ao Palácio Nacional de Mafra

* Inscrição prévia através do email: rotamemorialdoconvento@gmail.com

16h00 | 16h30 

Irene Lima - Concerto de violoncelo  

RESUMOS

 

Pilar Del Rio, Presidenta da Fundação Saramago

Leer a José Saramago

 

Piero Ceccucci, Professor de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira

na Faculdade de Letras da Universidade de Florença (aposentado)

 

A escrita, o olhar e o tempo histórico em Ensaio sobre a cegueira

e no Memorial do Convento de José Saramago

Nesta apresentação o autor analisa o uso que Saramago faz da História, ou seja da res facta, relacionando-a com a ficção, ou res ficta, a partir de dois romances: o Ensaio sobre a Cegueira e o Memorial do Convento. É dado enfoque ao olhar de Saramago sobre os acontecimentos descritos e a sua leitura histórica pessoal da res facta, por ele investigada e narrada. O autor pretende evidenciar de que maneira, no escritor, tal distinção não é corroborada por uma atenta análise do texto narrativo, introduzindo algumas considerações sobre o olhar que Saramago tem da história: uma história que é ao mesmo tempo História e história, com H maiúsculo e minúsculo.

 

Carlos Nogueira, Regente da cátedra José Saramago da Universidade de Vigo

 

A literatura e o mal: José Saramago

Toda a obra de José Saramago equaciona o problema da definição, das manifestações, das características e das causas do mal. Nesta conferência, o autor procura contribuir para a compreensão da problemática do mal, quer em Saramago quer, apoiado na sua escrita, na ação individual e na prática social e política (numa palavra: na vida ética). Para isso, parte de um conjunto de teses sobre a natureza do mal que o discurso literário e o pensamento de Saramago confirmam, com génio, num diálogo amplo e heterodoxo com a literatura, a filosofia, a história, a sociologia, a antropologia, a religião, a psicologia, etc.: “o mal é um estado permanente, o bem um estado provisório”; “o mal é ontológico, o bem ôntico”; “o mal não é um mistério, ele é o que por toda a parte existe e substância mais universal não existe” (Miguel Real).

 

Isabel Ponce de Leão, Professora Catedrática da Universidade Fernando Pessoa (Porto)

 

A violação do código erótico em Memorial do Convento

Se, etimologicamente, violar sugere violência, devastação ou mesmo profanação, ao aplicá-lo à escrita de Saramago a autora conota-a com transgressão; esta opção sígnica – violação – deve-se ao humor, à originalidade e até mesmo à veemência da ostentação de infrações. O Memorial do Convento constrói-se através de um vasto leque de violações de códigos aceites como canónicos, constituindo, concomitantemente, um ritual e um culto a uma heterodoxia assumida, quando o protagonismo é dado a seres que voam, a mulheres que perscrutam almas ou a um rei cujo objetivo primeiro de governação é a construção de um convento. A autora dá conta da violação do código erótico nas relações de repressão e transgressão, com características dicotómicas, como são as estabelecidas entre o D. João V e Dona Maria Ana Josefa e entre Baltasar e Blimunda.

 

Annabela Rita, Professora e diretora de Licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

“Detrás da claraboia/ um rosto, outro,/ observando-se, / observando-nos.” (Severo Sarduy)

Nesta comunicação, observar-se-á o modo como a obra Memorial do Convento desenvolve uma reflexão sobre a cultura portuguesa através de jogos de espelhos entre textos, imaginários, símbolos e épocas. Recorrendo a processos contrapontísticos, de chiaroscuro e de sfumato, Saramago entrelaça memorialmente passado e presente, utopia e distopia, espaços sociais diversos (corte, clero e povo), realidade e visionarismo, realidade e ficção, Romantismo e atualidade, vida e morte…

Maria Fernanda Monteiro dos Santos, Coordenadora dos Serviços Educativos

do Palácio Nacional de Mafra 

O Palácio Nacional de Mafra e o Memorial do Convento antes e depois do Nobel

 

A leitura histórica do Memorial do Convento no contexto escolar. Que rei, que sociedade, que povo, que vila, que país… O Memorial do Convento como oportunidade para falar da História de Portugal, do património e da actualidade. Duas décadas depois, milhares de jovens visitaram o monumento graças ao estudo de um romance maior da literatura Portuguesa.

 

Miguel Real, Professor, ensaísta e escritor. Comissário Literário da Rota Memorial do Convento

Memorial do Convento e o romance português na década de 1980

Integração de Memorial do Convento na produção ficcional portuguesa da década de 1980, comparando, quanto a temas e estilos literários, José Saramago com as obras de Mário de Carvalho, Teolinda Gersão, Rui Zink, Luísa Costa Gomes, Agustina Bessa-Luís e António Lobo Antunes.

 

Daniela Marcheschi, Lead Scientist da Fondazione Dino Terra

José Saramago e as tradições do romance do século XX

Na literatura, pensa-se por tradição, escreve-se por tradição: tradições cuidadosamente consideradas e escolhidas, "apresentadas" à luz de um reconhecimento crítico da realidade e de como gostaria que esta fosse. Homem de utopias e liberdade, José Saramago  foi romancista, poeta, jornalista, tradutor, crítico literário e autor de teatro, tornando-se um dos escritores internacionais mais multifacetados do século XX. Esta intervenção pretende  refletir sobre a multiplicidade de tradições narrativas com as quais Saramago se confrontou na construção de suas páginas; sobre a problemática formal de um escritor, que adorava, como ferramenta de pensamento, tanto "palavras simples" como paradoxos, e que produzia um trabalho narrativo de grande força inovadora, capaz de se medir originalmente com a substância mais vital da literatura do século XX.

António José Borges, Professor de Português e Literatura Portuguesa

A mulher na obra de José Saramago – as mulheres trabalham na sombra

e Saramago constrói o seu Memorial…

 

A escolha deste tema parte de quatro premissas essenciais no pensamento de Saramago: a palavra dominante no mundo ainda é a masculina; a mulher pode ajudar decisivamente a mudar o mundo; a mulher possui, efetivamente, um sexto sentido; todas as personagens femininas na obra de Saramago são variantes de  Blimunda, nome da mulher protagonista de Memorial do Convento, que recebeu Baltasar no seu corpo quando ambos viveram o seu amor e, também, quando a inquisição o matou (como Maria de Magdala…). Então Blimunda disse «Vem» à vontade de Baltasar e o seu espírito «não subiu para as estrelas, se à terra pertencia a Blimunda». Hoje Blimunda, com tudo o que acolhe de sabedoria e de generosidade, pertence aos leitores. Blimunda é a primeira palavra para festejar José Saramago, pondo no mundo a harmonia e a sensatez que dele aprendemos. E de Blimunda.

Isabel Pires de Lima, Professora Emérita da Universidade do Porto. Investigadora do Instituto

de Literatura Comparada Margarida Losa

Transposição mediática em Memorial do Convento: Saramago e Abel Manta

 

Em 2016, a editora Guerra e Paz publicou uma edição especial de Memorial do Convento de José Saramago com 20 ilustrações inéditas de João Abel Manta, pintor e ilustrador contemporâneo do escritor com vasta e conhecida obra de ilustração. São 20 poderosos trabalhos plásticos que processam aquilo a que Irina Rajewsy chamou uma “transposição mediática”, no caso transposição do romance para a série plástica. No presente trabalho, procurar-se-á dilucidar as várias estratégias estabelecidas pelo pintor para levar a cabo este relevante trabalho que, partindo do romance, obriga a um constante movimento de regresso a ele, numa busca heurística que conduz a novos gestos de interpretação e à abertura de novos caminhos interpretativos do romance.

 

Guilherme d'Oliveira Martins, Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

Presidente do Grande Conselho do Centro Nacional de Cultura

A importância do Memorial do Convento como elemento do património cultural

No momento em que o Convento de Mafra é classificado como Património da Humanidade pela UNESCO devemos salientar que, além das qualidades intrínsecas do património material, não podemos esquecer no património imaterial a obra de José Saramago. Obra esta que constitui um elemento crucial para a valorização do património cultural como realidade dinâmica e complexa, projetada no futuro.

 

Ana Paula Arnaut, Professora de Literatura Portuguesa Contemporânea na Universidade de Coimbra

Memorial do Convento: o assalto à caixa forte da História

Construído a partir de três ingredientes fundamentais – as fontes históricas oficias, os registos oficiosos e a capacidade imaginativa do escritor – Memorial do Convento recria o período histórico do reinado de D. João V, compondo uma pauta narrativa em que se substitui o que foi pelo que poderia ter sido. Fazendo coexistir acontecimentos e personagens históricos com acontecimentos e personagens inventados (ou, talvez, não tão inventados quanto se pensa), José Saramago inscreve neste romance os vetores temáticos que, de um modo ou de outro, caracterizam a sua produção ficcional. A saber, a defesa dos fracos e oprimidos, a importância da Mulher, a crítica à religião,  ou o poder do Homem que, hereticamente, supera o poder divino, no caso a partir do trânsito narrativo de Baltasar e de Blimunda, que, com Bartolomeu Lourenço de Gusmão, formam a feérica santíssima trindade terrestre, destronando o rei e a sua basílica do primeiro plano da narrativa.

 

Carlos Fiolhais, Professor Catedrático de Física na Universidade de Coimbra

Diretor do Rómulo - Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Bartolomeu de Gusmão, a Passarola e as primeiras ascensões em balão

O estudante da Universidade de Coimbra Bartolomeu de Gusmão protagonizou, em 8 de agosto de 1709, a primeira ascensão, pelo menos no Ocidente, de um balão no ar.  É muito curiosa a concessão de autorização - uma espécie de patente - que obteve do rei D. João V, cinco anos mais novo do que ele. O objeto voador, que foi divulgado amplamente em forma de desenho e que ficou conhecido como "Passarola," era fruto de alguma fantasia e não poderia voar.  A demonstração que foi feita no Paço Real foi a de um pequeno balão de ar quente, semelhante aos "balões de S. João" de hoje.  O projeto não teve continuidade, não havendo provas de ter havido uma demonstração no exterior, do protótipo. De qualquer modo, é notável que tivessem transcorrido várias décadas até que, em 1783, os irmãos Montgolfier construíram e ensaiaram um balão, primeiro um modelo não tripulado e depois um modelo tripulado. O primeiro voo tripulado em Portugal foi realizado pelo italiano Vincenzo Lunardi em 24 de agosto de 1794, faz agora 225 anos.

 

Orietta Abbati, Professora de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Turim

Discurso histórico e discurso ficcional sobre o papel da Inquisição do século XVIII

no Memorial do Convento

Tendo em conta que qualquer discurso histórico é afinal, como sustentam críticos de “clara fama”, sempre uma narrativa de ficção, mesmo quando são ilustrados acontecimentos do passado, embora conhecidíssimos não só pelos estudiosos profissionais, mas também pelo público leitor, nos não deve admirar a ampla e aprofundada incursão histórico-ficcional no tema da Inquisição portuguesa do século XVIII, efetuada por José Saramago no Memorial do Convento.

 

Se bem que a Inquisição portuguesa esteja muito estudada por historiadores ilustres e que seja possível encontrar numerosos ensaios bastante exaustivos, num sentido científico, todavia – como é natural – escapa-lhes a vida simples, vivida quase sempre no limite da subsistência, das classes humildes. Assim a intervenção do Nosso Escritor vai encher difundidamente lacunas sobre estas problemáticas de maneira que, como afirma o autor da narração é «uma história que é ao mesmo tempo História e história, com H maiúsculo e minúsculo: isto é, contada não só do ponto de vista dos grandes (...), mas também dos pequenos, (...) introduzindo pequenas cargas que façam explodir» as contradições de narrações insustentáveis. Com o presente trabalho pretende-se explicar melhor e aprofundadamente essa tese de José Saramago.   

 

Manuel Frias Martins, Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa

Blimunda e a espiritualidade clandestina de José Saramago

Através da figura ímpar do padre Bartolomeu de Gusmão e da sua Passarola, o romance Memorial do Convento assegura uma representação superior do conflito quase eterno entre a força do sonho científico e o poder esmagador da cegueira religiosa. Sendo isto certo, não é menos certo que a figura literariamente tutelar desse conflito acaba por ser uma mulher extraordinária, um rasgão de luz, energia humana e suave espiritualidade de nome Blimunda, captadora de vontades por natureza (enquanto personagem) e vocação (enquanto expressão do seu criador literário).

 

Tal como se oferece à análise, aquele posicionamento criativo saramaguiano desencadeia duas consequências. Por um lado, demonstra que o perfil intelectual de José Saramago não consiste em polemizar por sistema e condição contra a religião, e muito menos que o seu horizonte de estímulos criativos se concentre nessa polémica.  Por outro lado, ajuda-nos a perceber o sentido, mais humanista do que histórico, de «romances históricos» como Memorial do Convento, os quais se oferecem acima de tudo como registos de uma performatividade ética que encena possibilidades de resposta aos anseios, medos e perplexidades do leitor contemporâneo. Nos olhos de Blimunda coexistem a força criativa da ficção e, através desta, a natureza espiritual do próprio olhar de Saramago. Este último opera clandestinamente através das virtudes do espírito de Blimunda enquanto personagem literária forte que, à maneira dos grandes heróis da literatura ocidental, emblematiza feitos individuais extraordinários que transcendem as condições materiais existentes. A espiritualidade clandestina de José Saramago passa pela aspiração ao belo, à justiça e ao bem que orienta, entre muitas outras obras, o romance Memorial do Convento. Mas é sobretudo a figura de Blimunda que inscreve nos aspetos concretos do mundo da vida o desvendamento e a iluminação espiritual saramaguianos.

 

Abdeljelil Larbi, Professor de Língua e Literatura Árabe na Universidade Nova de Lisboa.

Tradutor de árabe e português.

Memorial do Convento em árabe: características da receção e tradução

José Saramago é, até agora, o escritor português mais conhecido no mundo árabe, já com várias obras traduzidas. A tradução de Memorial do Convento foi a primeira feita diretamente do português para árabe, em 2019. Pela presente comunicação, procura-se sintetizar as características da receção dessa obra (entre outras) e analisar as estratégias e desafios tradutológicas.

 

Maria de Fátima Marinho, Professora Catedrática de Literatura Portuguesa na

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Identidades imperfeitas e desencontradas

A obra de José Saramago é marcada por uma busca, tácita, mas persistente, da identidade, seja ela a do sujeito ou a da coletividade. No presente ensaio, pretendo demonstrar como as múltiplas facetas da(s) identidade(s) se entrelaçam e se completam em obras que, aparentemente, escolhem assuntos cujas problemáticas são díspares e sem correlação entre si. Desde os romances com base histórica àqueles que exploram as vicissitudes do sujeito em luta com uma sociedade labiríntica e incompreensível, os múltiplos narradores põem a nu ambiguidades e contradições que o sujeito tem de enfrentar. A análise dos meandros da escrita de Saramago dará conta desta inegável luta e da sua magistral resolução.

 

Vítor Viçoso, Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (aposentado)

Memorial do Convento: a prática ficcional e a reescrita da História

Para José Saramago, “a História é parcial e parcelar”, daí a emergência de um espaço vazio que a ficção pode ocupar, pressupondo, por outro lado, um novo enquadramento dos eventos do passado. O romance Memorial do Convento estrutura-se a partir dessa perspetiva, reinventando as histórias da História, onde os atores coletivos olvidados ou o sentido da utopia contrastam com as narrativas tradicionais sobre o século XVIII, em Portugal, ou sobre o simbolismo da fundação do Convento de Mafra. Obra em rutura com o canónico romance histórico (designação que o autor recusa no que concerne aos seus romances), codifica-se segundo um novo percurso da memória e da virtualidade polifónica de o dizer/escrever. Nesse sentido, abre-se também ao fantástico e ao sobrenatural, uma outra vertente da inscrição da ficção no horizonte da História.

 

José Manuel Mendes, Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Escritores

Título a anunciar.

 

Cândido de Oliveira Martins, Professor de Literatura Portuguesa e de Teoria da Literatura

na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa (Braga)

Modos da paródia no Memorial do Convento

A obra saramaguiana Memorial do Convento não pode ser cabalmente entendida sem uma reflexão ampla sobre a presença e modos de funcionamento da paródia, entendida numa perspectiva teórico-literária atualizada, nomeadamente após as contribuições de M. Bakhtine e de outros teorizadores literários contemporâneos. Desde logo, sobressai uma paródia intertextual, sempre que o texto saramaguiano convoca outros textos, literários ou não. A par dessa dimensão, ocorre igualmente uma paródia arquitextual, quando a escrita do narrador pressupõe o diálogo com outros géneros literários. Por fim, e não menos relevante, tem lugar uma paródia interdiscursiva, com a palavra literária a dialogar com outros sistemas ideológico-culturais. Estas e outras reflexões podem ser orientadas para uma leitura didáctica do romance Memorial do Convento, revelando-se essenciais para a compreensão dos sentidos que presidem à arquitetura e à semântica desta obra.

Carlos Reis, Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Coordenador do Centro de Literatura Portuguesa

"Meter isto num romance": Saramago e a narrativização do espaço

 

A partir de uma reflexão de José Saramago acerca da génese de Memorial do Convento, nesta conferência procede-se a uma análise da representação do espaço na ficção do escritor. Desenvolvida de forma seletiva, a análise procura superar uma visão do espaço ficcional como elemento estático dos mundos narrativos; em vez disso, a componente espacial de vários romances saramaguianos (por exemplo, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra ou Ensaio sobre a Cegueira) tende a narrativizar-se, acolhendo ações, episódios históricos e figuras que incutem dinamismo àquilo que deixa de ser uma componente relativamente passivo na construção do relato. Trata-se de uma tendência marcante na obra de José Saramago, presente desde textos mais antigos e de certo modo fundacionais, como Viagem a Portugal.

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